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segunda-feira, 20 de Outubro, 2014 - 14h55

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Cresce número de alunos com mais de 40 anos nos supletivos de São Paulo

Foto: Agência Brasil

Foto: Agência Brasil

“Eu não sabia que eu tinha a capacidade de estudar e passar nas provas, porque eu me achava muito ruim nessa parte de escola”, conta Masako Sato, que aos 78 anos acaba de concluir o ensino médio e comemora a aprovação no vestibular para o curso de moda e estilismo. “Eu estou feliz, quem fica muito orgulhoso de mim são meus filhos e minha nora. Agora, eu nunca mais vou parar de estudar”, disse ela.

Masako faz parte do novo perfil de estudantes que buscam o diploma dos ensinos fundamental e médio nos supletivos paulistas. De acordo com a Secretaria Estadual de Educação, pessoas com mais de 40 anos representam 14,3% dos matriculados em 2012 na educação de jovens e adultos (EJA), o equivalente a 30.602. Há dez anos, essa proporção era 9,7%.

“Essas pessoas estão no mercado de trabalho e estão se defrontando com trabalhos muitos complexos e com uma exigência de escolaridade muito grande. Então, o trabalho que, muitas vezes, tirou essas pessoas da escolarização regular [no passado] impulsiona, neste momento, a voltarem para completar a sua escolarização”, avalia Mertila Larcher de Moraes, diretora do Centro de Educação de Jovens e Adultos.

Os adultos que decidem voltar às salas de aulas encontram duas opções. A mais convencional é por meio da educação de jovens adultos, que consiste em classes dentro das escolas estaduais. Os alunos precisam assistir às aulas regulares, normalmente à noite, e o curso tem duração de dois anos para o ensino fundamental e de um ano e meio para o ensino médio. A rede atende a 214 mil alunos, 180 mil no ensino médio e 36 mil no ensino fundamental, conforme dados de 2012.

Existem também, no estado de São Paulo, os centros estaduais de educação de jovens e adultos (Ceeja). As aulas não têm horário rígido e o aluno não precisa comparecer à escola todos os dias. O estudante pode estudar em casa ou no trabalho, basta passar na avaliação. Martila explica que a duração dos cursos é condicionada ao ritmo de aprendizagem do aluno. As 21 unidades atendem, no total, a mais de 40 mil matriculados.

O Ceeja é o mais apropriado para pessoas que trabalham, têm filhos e outros compromissos. Mertila citou os estudantes caminhoneiros da cidade de Miracatu, região do litoral sul paulista. “Eles vão levar a produção e aí o caminhão quebra, ou eles pegam enchente, e voltam desesperados se perderam a matrícula. Mas não perdem”, relata.

Segundo Maria Stela Santos Graciani, coordenadora do curso de pedagogia da Pontifícia Universidade Católica (PUC–SP), o maior desafio para lecionar para adultos com mais de 40 anos é ajudar os alunos a superar a vergonha pela rejeição sofrida no processo escolar quando criança. “O aluno não sai do sistema educacional por força só do trabalho. Ele sai muitas vezes porque ele sofreu bullying étnico, seja racial, pela cor, pela forma como fala ou porque veio de uma certa região do nosso país”, disse.

Além das exigências do mercado de trabalho, Maria Stela cita como motivador do retorno à sala de aula, a vontade de superação do sentimento de inferioridade na relação com os filhos, por exemplo. “Muitas vezes, os filhos vão para escola sabem mais do que ele. Tem uma subalternidade ao filho. Aí, em uma briga, o filho pode dizer: 'você não sabe nem ler, pai'. Então, coisas desse tipo, que se dão dentro de casa, no trabalho”, disse a especialista.

No caso da aluna mais velha da turma de moda e estilismo, Masako Sato, o grande motivador para a volta à escola foi um desejo antigo. “Sempre tive aquele sonho de fazer uma faculdade de moda e estilismo”, conta.

Quando jovem, ela cursou até a 4ª série, mas interrompeu os estudos para ajudar os pais na lavoura no município de Penápolis, interior do estado. Depois, veio para a capital paulista, fez um curso de modelista, mas casou-se e teve filhos. Só pensou em voltar a estudar com a morte do marido, aos 62 anos. Fez supletivo e, ao concluí-lo, decidiu testar o vestibular.

“Quando eu peguei o folheto [da universidade], não dei muita importância. Mas aí eu tive curiosidade, pensei: vou tentar fazer para ver se eu tenho capacidade de passar e conseguir. Realizar esse sonho é a coisa mais gratificante para mim”, conta Masako.

 

Edição: Carolina Pimentel